Letra de Dois Excertos de Odes (Ode À Noite)
Quando a Senhora quiser, professora! Uhum, então pronto, posso? Pode! Claro!Vem, Noite antiquíssima e idêntica Noite Rainha nascida destronada Noite igual por dentro ao silêncio Noite com as estrelas lentejoulas rápidas No teu vestido franjado de InfinitoVem, vagamente Vem, levemente Vem sozinha, solene, com as mãos caídas ao teu lado Vem, e traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas Funde num campo teu todos os campos que vejo Faze da montanha um bloco só do teu corpo Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo de dia Todas as estradas que a sobem Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores E deixa só uma luz e outra luz e mais outra Na distância imprecisa e vagamente perturbadora Na distância subitamente impossível de percorrerNossa Senhora Das coisas impossíveis que procuramos em vão Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela Dos propósitos que nos acariciam Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto E que doem por sabermos que nunca os realizaremosVem, e embala-nos Vem e afaga-nos Beija-nos silenciosamente na fronte Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam Senão por uma diferença na alma E um vago soluço partindo misericordiosamente Do antiquíssimo de nós Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos Porque os sabemos fora de relação com o que há na vidaVem, soleníssima Soleníssima e cheia de uma oculta vontade de soluçar Talvez porque a alma é grande e a vida pequena E todos os gestos não saem do nosso corpo E só alcançamos onde o nosso braço chega E só vemos até onde chega o nosso olharVem, dolorosa Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes Sabor de água da fonte sobre os lábios secos dos Cansados Vem, lá do fundo do horizonte lívido Vem e arranca-me do solo da angustia onde vicejo Do solo de inquietação e vida-de-mais e falsas sensações D'onde naturalmente nasci Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido E entre ervas altas, malmequer ensombrado Folha a folha, lê em mim não sei que sina E desfolha-me para teu agrado Para teu agrado silencioso e frescoUma folha de mim lança para o Norte Onde estão as cidades de hoje cujo ruído amei como a um corpo Outra folha de mim lança para o Sul Onde estão os mares e as aventuras que se sonham Outra folha minha atira ao Ocidente Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o futuro E há ruídos de grandes máquinas e grandes desertos rochosos Onde as almas se tornam selvagens e a moral não chegaE a outra, as outras, todas as outras folhas O oculto tocar-a-rebate dentro em minha alma Atira ao Oriente Ao Oriente, de onde vem tudo, o dia e a fé Ao Oriente pomposo e fanático e quente Ao Oriente excessivo que eu nunca verei Ao Oriente Budista, Brahmanista, Xintoista Ao Oriente que é tudo o que nós não temos Que é tudo o que nós não somos Ao Oriente onde - quem sabe? - Cristo talvez ainda hoje viva Onde Deus talvez exista com corpo e mandando tudoVem sobre os mares Sobre os mares maiores Sobre o mar sem horizontes precisos Vem e passa a mão sobre o dorso de fera E acalma-o misteriosamente Ó, domadora hipnótica das coisas que se agitam muitoVem, cuidadosa Vem, maternal Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste À cabeceira dos deuses das fés já perdidas E que viste nascer Jeová e Júpiter E sorriste, porque tudo te é falso, salvo a treva e o silêncio E o grande espaço misterioso para além delesVem, Noite silenciosa e extática Vem envolver no teu manto leve o meu coração Serenamente como uma brisa na tarde lenta Tranquilamente como um gesto materno afagando Com as estrelas luzindo, ó, Mascarada do Além Pó de ouro no teu cabelo negro E o quarto minguante mascara misteriosa sobre a tua face Todos os sons soam de outra maneira quando tu vensQuando tu entras baixam todas as vozes Ninguém te vê entrar Ninguém sabe quando entraste Senão de repente, vendo que tudo se fecha Que tudo perde as arestas e as cores E que no alto céu ainda claramente azul e branco no horizonte Já crescente e nítido, ou círculo amarelento, ou mera esparsa brancura A lua começa a ser real
